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Revisões nos jornais...
Carmen Viera Tribuna da Madeira, 1 Outubro, 2006
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O surfista do betão, Jorge Freitas Sousa Diario de Noticias da Madeira, 17 Setembro, 2006
Que o senhor secretário regional do Equipamento Social já tinha sido um revolucionário aguerrido, no pós-25 de Abril, um chefe de gabinete omnipresente e presidente de uma Assembleia Municipal, já sabia. Que é surfista é uma novidade. Tão surpreendente como daquela vez em que fiquei a saber que Marques Mendes fazia bodyboard. Sim senhor, é um secretário radical. Pelo menos percebe de ondas porque garante que no Jardim do Mar está tudo bem e só não aparecem mais surfistas porque os suspeitos do costume os afugentaram com mentiras. E até mandou fazer um filme para competir com a "Save the Waves". Só não se sabe se vai criar a associação "Salvem o betão" e andar pelo Mundo a denunciar os impedimentos à construção de muralhas.
Mais a sério, porque não acredito que o senhor secretário, tal como eu, se consiga equilibrar em cima de uma prancha, este é mais um contributo para colocar a Madeira no anedotário internacional. Todo o processo é um somatório de teimosias e atitudes arrogantes do poder regional que tinha muito a ganhar em ouvir opiniões de especialistas. Os tais que só alguém muito ignorante pode acreditar que são uns "pés rapados" sem vintém. Infelizmente é sempre assim, só muito tarde se dá razão a quem já a tinha de início e nunca há coragem para pedir desculpas.
O povo do Jardim do Mar também não sai nada bem nesta fotografia. Ninguém vai esquecer (ou perdoar) os comportamentos vergonhosos, com insultos e muito mais, contra quem lá foi defender a maior riqueza da freguesia. Agora queixam-se que já não há dólares dos surfistas, os tais que já foram "drogados". Trocaram o bom relacionamento que tinham com os surfistas estrangeiros, por um "desenvolvimento" que lhes foi vendido em forma de um muro de betão. Valeu a pena? O tal desenvolvimento já chegou?
Diário de Notícias da Madeira, 16 Setembro, 2006
A Save the Waves Coalition vai informar a União Europeia (UE) sobre a alegada má utilização de fundos comunitários por parte do Governo Regional em obras como o enrocamento/muralha de protecção do Jardim do Mar ou Marina do Lugar de Baixo, invocando que houve dinheiro gasto que não foi usado de acordo com as orientações ambientais.
O director da organização internacional que luta pela preservação das linhas de costa, Will Henry, compara a relação UE/RAM como a de um pai que dá uma nota de dez euros ao filho e pede-lhe para ir ao mercado comprar leite, avisando que é para não comprar doces. Como era de esperar, «a criança chegou a casa com um saco cheio de rebuçados e sem leite», observa.
Em declarações à comunicação social após a antestreia do documentário "Jóia Perdida do Atlântico", o surfista norte-americano revela que o passo seguinte da Save the Waves é «ir à União Europeia e mostrar-lhes que a sua política não está a funcionar, que tem causado muita destruição ambiental por toda a Europa» e que tem levado certas «pessoas a ganhar em termos económicos às custas de cidadãos comuns».
Mostra-se confiante que, mais tarde ou mais cedo, haverá disponibilidade financeira para pôr um plano em acção que pode passar por «apresentar uma queixa contra a União Europeia - pela má utilização de fundos e falta de fiscalização ambiental - e eventualmente Portugal ou Madeira».
Análise da Semana, Raquel Gonçalves Diario de Noticias da Madeira, 16 Setembro, 2006
O fim das ondas no Jardim do Mar continua a dar que falar. Não é que depois das manifestações, pró e contra, os turistas de "pata-rapada" ou os drogados como chegaram a ser simpaticamente chamados, em mais uma demonstração de que a boa educação e a fineza de trato é a imagem de marca cá do burgo, resolveram fazer um filme.
Na versão oficial, a produção não passa de um devaneio de meia dúzia de "patas-rapadas", feita sob o efeito nefasto de uma qualquer droga, para prejudicar o tão aclamado progresso.
Numa primeira fase, até a população do Jardim do Mar comprou esta versão, mas agora já se queixa de que com o fim das ondas e do "surf" a freguesia ficou a perder. Antes conhecida como um dos melhores paraísos do "surf" ao nível europeu, agora continua a ser notícia, mas não propriamente pelas melhores razões. Ninguém questiona que alguma coisa deveria ser feita para travar a erosão do mar, mas se calhar eram possíveis outras opções, que garantissem que o dinheiro continuaria a entrar nos cofres de quem tem negócios no local.
A visão simplista de que em causa estava um bando de malfeitores, só porque andavam de calções e de pé descalço, afinal revelou-se errada. O hábito não faz o monge, diz a sabedoria popular. Mas isso é só verdade se não vivermos na Madeira. Aqui andar de calções e descalço é quase tão grave como ir para a Assembleia de sapatilhas e calças de ganga.
Esta visão do mundo não só está desajustada da realidade, como demonstra uma tentativa de uniformizar estilos e vontades. Não só um jornalista de sapatilhas não é menos jornalista por isso, como um surfista descalço não tem de ser um pata-rapada. Até porque, na maior parte das vezes, é apenas um turista com dinheiro suficiente para deslocar-se à Madeira apenas para fazer surf.
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